A música da saraiva tem uma coisa ou duas pra dizer sobre como eu me sinto
Olho pela janela, vejo apenas animais,
Mas os invejo. Que grande vontade de viver!
Animais de calças; Ignorantes demais,
Jamais verão o que eu aprendi a ver!
Belas, jovens e felizes moças caminham,
Tranquilas, sem dono, sem rumo, sem lar.
Pouco lhes importa o caminho a trilhar,
Se tiverem alguém a quem lhes acompanhar.
E dessas… que lá fora fiquem,
A esperar. O que? Não sei,
A espreitar não importa quem,
Só por uma me interessei.
Branca, pálida, por mim vista nua,
Como nenhuma das sujas larvas da rua,
Sem traços humanos, sem graça mundana;
A lua.
É que eu estudei bastante, mas não o suficiente.
Outras coisas me chamaram a atenção naquela época e talvez, se eu não tivesse perdido tempo com as glórias e belezas de símbolos perdidos e desenhos ocultos, eu teria aprendido sobre os números importantes.
É que eu sou um quase-ambiental.
Mas só por que nada fazia sentido.
É que eu sou um quase-eletrônico.
E se o fosse por completo…
Teria consertado meu celular teimoso.
Eu juro que teria…
Estava lá, então, esticada na grama a jovem dona de casa. Entre o almoço e o jantar, a pobre moça cantarola sozinha olhando para o céu. Gordíssima e irritadiça, parecia ter o dobro da idade que realmente tinha, pouco se cuidava e passava a maior parte do tempo cozinhando e costurando, quando não simplesmente admirando o vazio, criando fantasias secretas e planos que nunca escapavam por seus lábios, sequer tomavam formas reais.
“Que propósito tem isso? Esse céu lindo acima, um mar lindo em torno, se eu sou tão feia e inútil? Eu queria ser como Alexis. Queria ter sorte de ser Alexis, por dez míseros minutos que fossem.” Pensou consigo, a jovem empregada que desde que era também pequena, cuidava da órfã Alexis. Bela, única, alegre Alexis.
- O que vem depois do doze, Ana? Perguntava Alexis, curiosa.
- Treze. Respondia a ama Ana, com um peculiar e bruto carinho. Treze primaveras, Alexis.
- Treze primaveras?
- Foram quantas contei desde a primeira vez que você viu a luz do sol.
Alexis a enchia de perguntas. Enchia o casebre de madeira com uma curiosidade infantil e uma felicidade ingênua. Ana trouxe um pano grande até sua cama e ordenou que dormisse.
- Não sabe que cai um cabelo seu pra cada pergunta que não se deve fazer, feia? Dizia denovo Ana, com peculiar amor.
- Então eu posso fazer mais uma pergunta, já que um cabelo não vai fazer tanta falta…
Pegando em seus cabelos loiros volumosos, com um sínico sorriso e os olhos voltados para Ana, que respondeu;
- O que é?
- Algum dia eu vou ser grande e boa como você?
Ana parou e, depois de sabe-se lá quantas primaveras, uma lágrima percorreu seu maltratado rosto redondo. Fitou a pequena e acenou que sim com a cabeça. Deixou-na dormir e foi de novo contemplar o céu.
“Que bem eu faço? Que dom eu tenho? Pobre Alexis, não sabe de nada…” E só por um momento, não sentiu inveja da pequena.
Vi convivência, amizades e relacionamentos morrendo aos poucos por causa de ideologias, utopias, sonhos e planos e isso já me incomodou tanto… Tanto que agora eu nem me importo. Não vou dizer que eu me arrependo, quanto mais o tempo passa, mais orgulhoso fico de ser o que sou e como sou.
Enojo muitos e eu o sei bem.
Se alguém se enoja por isso, é bom que fique nauseado mesmo, e longe. Como diria minha sábia mãe; É muito fácil ser amigo de fracassados e arranjar amigos sendo um fracassado, por que todo mundo que tá na merda só quer alguém de quem rir, e assim esquecer seu próprio desgosto.
Pois que seja.
É que eu ando meio Jorge Amado, sabe?
Meio socialista, nesse Maio que é o mais vermelho da minha vida.
E meio arenoso também.
Essa noite eu dormi na areia.
No céu não vi um fino arco brilhoso por lua. Vi no meu céu um brilho de um segundo sol, quase um amanhecer adiantado. A lua por sol, brilhando única no céu. Vi aos meus pés, a areia brilhante, indicando meu caminho. Do meu lado um rosto conhecido, uma amiga de uma amiga minha ou algo assim.
Essa noite eu corri na areia.
Ouvi com atenção ao doce chamado daquela pessoa. Alguém da areia, alguém como areia. Doce chamado: romântica forma de romantista dramático; Foi um urro desmoralizador, um grito de guerra. Me chamou à corrida pela praia, a dama de areia.
“Onde a areia dourada fica cinza; onde a maciez morna vira fria dureza. É pra lá que vamos! Atrás das tartarugas.”
A praia feia nunca parecia vir. Areia macia e morna a perder de vista.
Essa noite eu quis morrer na areia.
A vi cair. Vi mergulhar feliz numa duna, ao som do mar, seu pequeno corpo de moça. Deitei ao seu lado e olhei pro céu. Olhamos, esperamos, até que a lua virou sol.
Essa noite eu dormi na areia.
Algumas coisas que eu posto são repetidas, sim, duas ou três vezes; Por que nada expressa sentimentos melhor do que elas.